Resenha: A New Medium Ages – Carniça (2022)

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Existe uma clássica frase que pode sintetizar perfeitamente o trabalho que dissecarei no texto de hoje:

“Nunca julgue um livro pela capa”

Mas não interprete errado amigo leitor, pois em momento algum julguei que o novo trabalho do Carniça seria ruim. Mas, por este ser o meu primeiro contato,ao me deparar com a excelente arte de capa, pensei que a sonoridade do grupo seria mais voltada para um Thrash Metal nos moldes mais tradicionais.

De fato, a banda gaúcha, formada em 1991, possuí sim referências a esta vertente do Heavy Metal, porém, agrega elementos do Death Metal, e até mesmo do metal mais tradicional, resultando em uma sonoridade violenta, que não tem receio de flertar com linhas mais melodiosas.

A New Medium Ages, é o sucessor do álbum que leva o nome do grupo, lançado em 2017, e quinto registro de estúdio. Durante os 31 anos de carreira, a banda passou por mudanças estruturais, variando entre quarteto e trio. Atualmente, o Carniça é formado por Mauriano Lustosa nos vocais, Marlo Lustosa na bateria, o guitarrista Parahim Neto e o membro mais novo da banda, o baixista Kaue Muller no contrabaixo.

De forma épica e magistral somos arrebatados com a belíssima intro The Dark, que serve como preparação para a verdadeira tormenta que se avizinha. Os teclados e efeitos que permeiam a faixa foram reproduzidos por Ramon Oliveira, vocalista da banda Doc Jones.

Com o último grasnar de abutres, o poderosíssimo riff de Dogs of War nos é apresentado. Este foi o primeiro lampejo do que viria ser o atual trabalho da banda, sendo lançado como single no pandêmico ano de 2020. Vale destacar, a naturalidade com que a banda consegue fazer a transição entre momentos mais brutais, para passagens carregadas de um feeling mais harmonioso, algo que me remeteu ao Metallica na fase mais clássica. A letra aborda a cega subserviência militar, que transforma indivíduos em meros peões, capazes de se anular individualmente, cometendo as maiores atrocidades em nome de ideais patriotas e valores religiosos.

País Sem Salvação sintetiza com clareza absurda os últimos anos do nosso atual desgoverno, regado pelo negacionismo, o fanatismo religioso e, principalmente, a cegueira perante as atrocidades cometidas por àqueles que clamam ser a salvação da pátria. Uma faixa com um ótimo andamento e um instrumental que casa perfeitamente com as linhas vocais cantadas em português. Um belo exemplo para quem ainda pensa que o Metal não pode ser bom quando entoado em nossa língua mãe.

Trazendo uma estrutura inversa das faixas anteriores, Command coloca a melodia como elemento mais evidente, porém, voltando à agressividade quando necessário. O Refrão é emblemático e essa quarta pedrada tem passagens riquíssimas durante o solo, resultando em um dos pontos mais elevados do trabalho. Pode ser que esteja errado, mas senti certa influência de Phil Anselmo nos vocais de Lustosa. A mensagem da letra vai direto ao ponto. Não importa quantas eras se passem, o único comando obedecido pela humanidade sempre tenderá a ser o da auto degradação.

A brutalidade iminente retorna ao foco com a faixa que dá título ao trabalho. E que verdadeira quebradeira meus amigos. Alternando entre o inglês e o português, A New Medium Ages traça um paralelo do nosso atual momento político no país com a chamada Idade das Trevas, onde a Igreja e os asseclas governavam a população com tirania, usando como pretexto e moeda de troca, a bíblia. Somada ao som anterior, esta é uma composição que até em momentos de melodia, não dá espaço para o ouvinte respirar.

Com pegada mais voltada ao Heavy Metal tradicional, a introdução e o andamento inicial de You Are Dead apresentam uma pedrada recheada de cadência, que junto às linhas vocais, farão o seu pescoço inconscientemente se mexer. O Riff principal me fez remeter, a parte mais agressiva de Don’t Talk To Strangers, presente no trabalho de estreia do saudoso Ronnie James Dio. Já a letra, reforça a ideia de abandonar tomar lados de determinados espectros políticos, afinal de contas, estamos apodrecendo diariamente e precisamos de alguma forma, fazer a nossa podridão valer a pena, nos libertando do domínio ideológico.

Sexual Perverted traz uma atmosfera mais soturna, abordando tanto a mente perturbada dos criminosos pervertidos, que infelizmente vagam livres por nossa sociedade, ao mesmo tempo, em que exprime o desejo que pelo menos todos nós já sentimos uma vez, de meter uma bala na testa de um individuo destes ao nos depararmos com uma notícia envolvendo crimes sexuais.

A oitava faixa, traz o fim iminente desta nova idade média. World Demise ainda carrega o tom sombrio da música anterior que, em conjunto à desolação que assola a letra, é um excelente encerramento para a parte autoral do trabalho.

Fechando o disco com chave de ouro, o Carniça traz uma nova e excelente roupagem para a clássica Powerslave do Iron Maiden. Essas revisitações são comuns desde os primórdios da banda, funcionando além de homenagens, como um bônus sempre muito bem-vindo.

Lançado no dia 10 de maio deste ano, A New Medium Ages foi produzido pela própria banda. Gravado entre abril de 2021 e janeiro de 2022, o álbum foi mixado no From Hell Studio, por Henrique Fioravanti. O resultado desta parceria apresenta o disco mais bem produzido da trajetória do grupo, sem perder a crueza e o peso que emana do som do quarteto.

Já o incrível trabalho gráfico, ficou a cargo de Alcides Burn, da Burn Artworks, artista que já trabalhou com bandas como Slayer, Nervosa, Krisiun, Headhunter D.C, entre outros. E que arte incrível meus amigos, retrata com perfeição o nosso país nos tempos esquizofrênicos em que vivemos de uns anos para cá.

Como sempre gosto de ressaltar, o material físico só enriquece todo o processo de se escrever sobre determinada obra. E neste quesito, não há o que se reclamar, pois a versão em CD de A New Medium Ages, uma colaboração entre os selos Extreme Sound Records, Brutaller Records, Heavy Metal Rock e Thrash or Death Records, traz um material de encher os olhos, com a qualidade que uma banda com o tempo de estrada como o Carniça merece. Um item essencial para quem, assim como quem vos escreve, é fascinado por ter na prateleira.

Posso afirmar sem sombra dúvidas, que o excelente material que recebi em mãos pela parceria que firmei com a Extreme Sound Records, trata-se de uma produção que não se limita às formulas já conhecidas e batidas dentro do gênero, trazendo uma pegada diversificada, inovadora, sem temer a desaprovação do público mais ortodoxo, inerente ao estilo. Os riffs são cativantes e capazes de se fixarem facilmente na cabeça do ouvinte.

É obvio que as críticas político-sociais exalam nas temáticas líricas, porém, nos são apresentadas de forma inteligentemente conscientes, trazendo a libertação das amarras ideológicas e o abraço ao senso crítico (válido para ambos os espectros políticos), como a verdadeira saída para a nossa sociedade.

Em suma, A New Medium Ages me surpreendeu positivamente. É uma obra, cuja contemplação e reflexão caminham em pé de igualdade com todo o ódio advindo do Heavy Rotten Metal (termo criado pela banda para sintetizar o som do grupo), fazendo do álbum, mais um dos ótimos retratos sonoros de um período, em que nosso país, e por que não o mundo, já vivenciaram dias melhores…

Tracklist

1 – Intro The Dark
2- Dogs of War
3- País Sem Salvação
4- Cammand
5- A New Medium Ages
6-You Are Dead
7-Sexual Perverted
8-World Demise
9-Powerslave (Iron Maiden Cover)

 

 

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